Hoje é dia de publicação das primeiras reviews propriamente ditas do novo Palm Pre (Walt Mossberg aqui, Davig Pogue acolá)
A primeira coisa que me salta à vista no Pre é que a Palm tentou atingir o mesmo objectivo que a Apple com o iPhone, mas à sua maneira, não se limitando apenas a tentar copiar o iPhone para dizer “nós também fazemos X, Y ou Z”. Veja-se por exemplo o facto de ter um teclado físico ao invés de um teclado virtual. Não obstante, a Palm não teve pejo em reproduzir (se copiou ou não, são contas de outro rosário) o que considerou interessante no iPhone, caso do gesto de zoom com dois dedos.
Posto isto o ponto em que me queria focar é na recente notícia (e polémica) de que o Palm Pre é capaz de se sincronizar com o iTunes como se se tratasse de um iPod.
O John Gruber acha que tal feito é um hack, que a Apple não vai permitir que isso continue a acontecer e que é uma medida quase desesperada da Palm. O Daniel Eran Dilger, pelo contrário acha que isto é tudo uma guerra imaginária entre a Apple e a Palm e que a primeira vai reagir a este facto como o fez com o jailbreaking de iPhones. Este último mantém uma posição coerente quando há uns meses defendeu que a afirmação de Tim Cook sobre a protecção dos direitos de propriedade intelectual da Apple numa conference call não era dirigida à Palm.
Onde é que eu estou no meio disto? Bem, mais ou menos a meio. Não tenho dúvidas que se trata de um hack, pois o Pre disfarça-se como iPod para enganar o iTunes. Só isso é motivo suficiente para identificar a medida da Palm como tendo sido feita às escondidas da Apple. Ao contrário do Daniel Eran Dilger, não acho que a Apple tenha qualquer interesse em facilitar a vida à Palm e aceitar de bom grado a sincronização com o Pre. Não vejo mesmo nenhuma vantagem competitiva para Cupertino. É o Pre quem precisa do iTunes e não o inverso.
Por outro lado, também não estou a ver a Apple a cair com um martelo legal em cima da Palm (a não ser que seja para a levar a torrar dinheiro num processo judicial) e pagar as favas com publicidade muito negativa, arriscando de caminho a chamar a atenção para a posição dominante que tem no mercado de leitores de música e gestão de ficheiros associados (mais uma vez, se seria abuso de posição dominante, é tema para outra conversa).
O que eu vejo a Apple fazer é simplesmente com cada nova versão do iTunes, fechar os buracos que a Palm for descubrindo. Iniciando um jogo do gato e do rato, a Palm tem mais a perder quando os seus clientes a cada versão nova do iTunes lhe forem bater à porta porque não conseguem sincronizar com o programa. Reduz a Palm quase a uma empresa de vão de escada que vende hackintoshes.
O Daniel Eran Dilger apresenta como analogia para esta situação o jailbreaking de iPhones. Eu acho que a situação é mais similar ao que se passou em 2004 quando a Real Networks desbloqeou os ficheiros AAC com FairPlay para serem lidos noutro hardware que não iPods (aqui). Sendo certo que a Palm aprendeu a lição da Real e não faz a sincronização de ficheiros protegidos, a verdade é que em ambos os casos a Apple tinha uma vantagem comparativa a proteger. Em 2004, fazer com que os ficheiros comprados na iTunes Store fossem lidos apenas em iPods (facto absolutamente irrelevante hoje em dia), em 2009 garantir que o iTunes funciona apenas com iPods.
Por algum motivo, como bem refere Grubber, a lista de leitores de música digitais que é oficialmente compatível com o iTunes é da idade da pedra (lista aqui).
Encontram algum leitor de música moderno nessa lista? Não. É coincidência?