Ensaio sobre os preços do iPhone em Portugal
Julho 14, 2008 7:39 pmOnde a Vodafone tinha originalmente estes preços:



Onde muitos se queixavam que os preços em Portugal eram um roubo, o site italiano setteB.IT fez um excelente trabalho de comparação:

Dá para ver que em termos de preços Portugal não está assim tão desfazado da média. Onde há uma grande diferença é efectivamente nos planos de dados com alguns operadores a manterem os freios bem apertados à volta dos 100/250mb (entre os quais a Optimus e a Vodafone.pt) e outros como a O2 ou a AT&T bem mais mãos largas no que toca ao consumo de dados.
Quanto aos preços em concreto em Portugal confesso não perceber a fúria à volta deles, por dois motivos. Em primeiro lugar quase que aposto que a disponibilidade de iPhones nas operadoras portuguesas vai ser limitada. Ou seja, não irão ter um número enorme de telemóveis para vender. E o que é que acontece quando há bastante mais procura que oferta? Simplesmente vendem-se as unidades disponíveis a quem está disposto a pagar mais por isso. É uma regra simples da economia de mercado. As operadoras - como toda e qualquer sociedade comercial - existe para dar dinheiro a ganhar aos seus accionistas (e direi eu cinicamente, em primeiro lugar às suas administrações, mas isso são contas de outro rosário).
Assim sendo, é natural que as operadoras ataquem a faixa de mercado que mais rendimento lhes poderá dar pelo número de unidades disponível. A malta jovem, que conta tostões (já lá vamos) mas que olha para o iPhone como o substituto natural do iPod no que toca a status que espere pela baixa de preços como aconteceu com o leitor de música.
O segundo motivo tem a ver com o que custa o iPhone para as operadoras e as próprias características do mercado português de telecomunicações. Acreditem, o iPhone não é barato para as operadoras. Nada barato. A Apple está-se borrifando para a facilidade ou dificuldade das operadoras em encontrar clientes para os telemóveis. Estabelece um preço, quem quer morde o isco, quem não quer, passar bem.
As operadoras estão no negócio das telecomunicações, não no negócio de venda de telemóveis (por algum motivo os vendem à cabeça com prejuízo). Isto é, até estão mas desde que isso suporte a actividade principal, o que tem acontecido com os célebres contratos de permanência, por exemplo. Em Portugal efectivamente há uma tradição estranha de ter contratos de permanência em regime de pré-pago com consumo mínimo de x em x meses, que é no mínimo estranho quando se começa a olhar com profundidade para os conceitos em causa. Pré-pago. Permanência. Consumos mínimos. E porque é que esta idiosincracia tem no nosso país uma tão grande implantação quando comparado com outros mercados como Espanha, Reino Unido ou EUA? Lamento ser tão duro: porque somos um país pobre. Sim, pobre. Para primeiro mundo, entenda-se. Penso não ser preciso ir desenterrar as estatísticas do Eurostat para comprovar o que digo, mas até a Eslovénia tem actualmente um PIB per capita superior ao português.
A Apple está-se borrifando para a facilidade ou dificuldade das operadoras portuguesas em encontrar clientes para os iPhones. Estabelece um preço de venda às ditas, quem quer morde o isco, quem não quer, aguente-se. Encontram alguma diferença significativa de preços na Apple Store entre os países da zona euro? Independentemente da riqueza relativa ou absoluta de cada país, o preço é sensivelmente o mesmo.
A olhar para os números globais de vendas neste primeiro fim-de-semana, se as operadoras portuguesas não conseguem vender os seus iPhones, haverá outras que os comprarão à Apple pelo preço estabelecido. Somos um país pobre, paciência. Às vezes as pessoas parecem esquecer-se dessa realidade. Mas não há crédito ao consumo que (a)pague a mesma.
Por fim, acresce que o próprio iPhone tem tido desde o seu início uma relação quase umbilical com o modelo de contratos de pós-pago. Nos EUA é assim, no Reino Unido também, em Espanha idem. Porquê? Devido aos até agora bem elevados custos com transmissão de dados e com o facto de o iPhone atingir todo o seu potencial se estiver sempre ligado à Internet, seja por 3G seja por WiFi. Nomeadamente nos EUA e no Reino Unido a Apple conseguiu que um telemóvel com um apelo mais abrangente e mainstream que os tradicionais smartphone pudesse estar sempre ligado à Internet, visto a AT&T e a O2 disponibilizarem planos de dados sem limites para o iPhone. Sempre associados aos habituais (nesses mercados) contratos de permanência em modo pós-pago.
Portanto a coisa resume-se a isto: preço alto de venda às operadoras; país pobre; mercado individual habituado ao pré-pago; telemóvel mais virado para modelo pós-pago e necessitado de bons planos de dados. O resultado está à vista nos tarifários de Optimus e Vodafone.
Quem não gosta dos tarifários tem sempre uma forte opção do seu lado. Votar com a carteira. É caro, não se compra. Eu gostava muito de ter um iPhone aqui no Reino Unido, mas não estou para me amarrar a uma despesa mensal fixa de 30 ou 35 libras. Não porque o preço seja incorrecto, mas porque a minha bolsa não comporta esse tipo de despesas. Mas ninguém me vê a bradar em fúria contra a O2 por não colocar o iPhone a um preço acessível para um aluno bolseiro.
PS: Acreditem que pré-pago em Espanha e no Reino Unido não compensa. Been there, done that.
PS2: O pré-pago pode ser comparado ao microcrédito. É uma boa maneira de, especialmente em países pobres, pessoas que em condições normais (pós-pago e crédito via banca tradicional) não o poderiam fazer, terem acesso a determinados bens. Uns de consumo, outros de investimento, diga-se de passagem.
PS3: Preocupa-me mais o preço elevado da tortilha de milho no México do que o do iPhone em Portugal. Grave, grave é não ter dinheiro para comer.
anónimo :
Date: Julho 15, 2008 @ 1:05
Dizem os “in-the-know” que consta do acordo entre a Apple e as operadoras um “revenue share” do tráfego consumido pelos clientes iPhone, o que justifica o “escândalo” do preço ao MB.
Consta também que a TMN entrou tarde na corrida porque andou a tentar lutar contra esta alínea contratual…
ArmPauloFerreira :
Date: Julho 15, 2008 @ 1:48
Eu considero os actuais tarifários do iPhone muito bons e até melhores do que os normais tarifários Best e Vita que já existiam, Pedro.
Eu uso actualmente um plano Best 14,90 e não tenho essas vantagens todas que tem o plano Best iPhone 100 ao mesmo preço.
Portanto os tarifários estão bem bons. Inclusive os Vita (pré-pagos).
O problema, se é que é problema, é que as vantagens desses tarifários só aparecem se o iPhone for pago na totalidade no acto de compra. Contudo, mesmo subsidiado o iPhone com os novos tarifários apenas fica mais caro 110€ em cada modelo. Nos primeiros tarifários da Vodafone, o iPhone ficava muito mais caro ainda.
Dediquei um artigo a esse assunto:
http://armpauloferreira.blogspot.com/2008/07/iphone-chegou-portugal-e-vodafone.html
PT :
Date: Julho 15, 2008 @ 11:06
Eu não tenho nada pessoalmente contra os tarifários, tenho sim contra as pessoas que têm bramado com eles.
Sou demasiado pragmático para ter alguma coisa contra tarifários de um país onde actualmente não vivo :D.
Carlos Martins :
Date: Julho 15, 2008 @ 11:15
É exactamente o que tenho dito…
A minha principal “reclamação” tem a ver com o limite de tráfego, que poderia eventualmente ser mais elevado.
(E mesmo assim, era quando se ia pagar 30 Euros de mensalidade.)
Para os 15 Euros mensais do Best iPhone 100 que escolhi, acho que o plano está “assustadoramente” bom… o que é de estranhar. :/
(No entanto, continuareu a fazer “campanha” para ter mais MB!
E já não é mau que a treta dos periodos de 100KB não seja para aplicar nestes planos - que isso também seria uma palhaçada…